12 de dez de 2009

Ato médico: quem precisa disso?

Madame Korat (odontóloga militante e amazona) resgata suas origens e explica por que o ato médico vai no sentido contrário aos interesses de uma política decente de saúde pública.



Por Madame Korat, 8 de dezembro de 2009.

Na primeira vez que adoeci não havia completado dois meses de vida. Eu não comia, não dormia, estava febril e choramingava sem interrupção. Minha mãe me levou à benzedeira do bairro, a dona Dita, que diagnosticou aquele estado: quebranto. Fui benzida e no mesmo dia meu apetite se abriu e dormi como um anjo. A benzedeira recomendou que minha mãe me levasse mais duas vezes, nas semanas seguintes – era para afastar de vez o mau olhado, nunca mais ficaria quebrantada.

Tenho uma lembrança muito vívida da dona Dita, uma negra miúda, com ossos salientes e cabelos brancos. Especulava-se muito sobre a idade dela, parece que vivera naquela casinha caiada de branco desde sempre e batizara todas as gerações das famílias do bairro. Toda vez que alguma criança da família era levada à benzedeira eu dava um jeito de ir junto. Ela cobria a cabeça com um lenço, derramava um pouco de óleo de cozinha num pires branco e colocava perto um copo à metade de água; com a criança deitada no seu colo ela assoprava umas palavras, parecia rezar; virava a criança de bruços, segurava-lhe os dois pés e dava tapinhas secos na sola, como quem bate no fundo de um pote de doce tentado descolar do vidro o último bocado. Por último, ungia a criança com o óleo enquanto pronunciava seus sussurros incompreensíveis. Não cobrava pelos serviços.

Minha avó Maria conhecia a cura para todos os males. Folhas, raízes e sementes eram preparadas em infusões, inalações ou compressas. Lembro-me estar acamada, tinha uns dez anos de idade; nos flashes de consciência em meio ao delírio febril distinguia a minha avó na cabeceira da minha cama. Então, ela me fazia engolir uma beberagem morna, esverdeada e doce, depois verificava a minha temperatura com suas mãos, puxava a minha pálpebra e examinava os meus olhos. E depois ficava quieta, me olhando com doçura e preocupação. O afeto que emanava desse cuidado da minha avó me marcou para sempre, ainda hoje nas crises agudas de carência afetiva fico febril...

Em nome de um racionalismo desmedido, principalmente nos grandes centros urbanos, as benzedeiras e curandeiras foram tacitamente banidas pela sociedade. Em detrimento dos saberes populares, valorizamos o conhecimento científico que se adquire nas academias, às quais apenas nossa elite tem acesso. O mais perverso desse processo de alienação em relação à própria saúde, é que nos convertemos em um povo dependente dos doutos profissionais, devidamente diplomados. A qualquer febre baixa de seus rebentos, nossas mães ficam desnorteadas e correm ao pronto socorro, expondo a criança a patologias mais graves.


Isso pode piorar: está no ar a aprovação do ato médico. Trata-se de um projeto de lei para regulamentar o exercício da medicina e que restringe ao médico o diagnóstico e a indicação de tratamento, por exemplo. Ou seja, pretende-se limitar a ação dos profissionais não-médicos, tornando-os também dependentes dos médicos para exercerem suas profissões. A motivação para essa mudança não poderia ser mais espúria: interesses econômicos e corporativos (ou você acha que estão pensando no bem estar do nosso povo?).

O ato médico decorre de uma valorização excessiva na nossa sociedade da figura do médico. Eu trabalhava como dentista numa UBS e havia o problema crônico da falta de médicos; numa das áreas, cuja equipe de saúde da família estava sem médico há quatro meses, a enfermeira e as agentes comunitárias fizeram um levantamento: quase 80% dos pacientes hipertensos haviam suspendido o tratamento por conta própria, alegando que não teriam como passar em consulta para acompanhamento.

Talvez como conseqüência dessa sobrevalorização do médico pela, talvez por causa da (de) formação do profissional, talvez pela motivação original de quem procura um curso de medicina, são muito frequentes os exemplos da postura arrogante por parte destes profissionais, além do destrato a quem deveriam tratar. É lamentável que se coloque nas mãos de apenas uma categoria profissional a saúde de todos nós. É lamentável que boa parte dessa mesma categoria não compreenda o seu papel social e se preocupe apenas com os ganhos materiais que advém do exercício da profissão.

Imagine que seja aprovado o projeto de lei. Dá para calcular o quanto isso vai onerar os serviços de saúde? Alguém já deve ter feito as contas. E como vai ser nas localidades com falta crônica de médicos no serviço, a equipe de saúde terá de sujeitar a trabalhar na ilegalidade ou vai, simplesmente, desistir de atender e resolver os problemas da população dentro da sua competência técnica?

O irônico é que a mãe atual desesperada com a febre baixa de seu bebê – condição que minha avó saberia lidar sozinha em casa – muitas vezes ouve do médico, um lacônico ‘é uma virose, mãe’. Nem sempre o médico faz o exame físico do paciente ou investiga mais profundamente a história da doença; prescreve um antipirético e não recomenda o retorno, como fazia a dona Dita. Antes sofrer de quebranto.

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